Histórias

Guarde meu suco, por favor!

Uma história vivida por mim e por meus colegas de trabalho, um pouco peculiar, conto uma história de uma paciente jovem, 25 anos, que já era mãe de 3 filhos, e estava gestante de seu quarto, de aproximadamente 20 semanas, estava com suspeita de H1N1.

Deu entrada em nossa UTI com suspeita de tuberculose também. Pela história contada por conhecidos, ela deixou seus 3 filhos com sua mãe e foi morar nas ruas. Era usuária de drogas, e bebia, mesmo grávida em sua situação atual. Não tinha um marido, sequer mantinha contato com sua mãe e seus filhos, todos pequenos.

Veio para nós consciente, sofria muito com tosses constantes, e estava tendo uma febre alta. Emagrecida, porém muito falante, de uma maneira exaustiva, tentava conversar com a gente sobre diversos tipos de assunto ao mesmo tempo, e ficava ofegante, devido ao seu quadro. Pedia para ela se acalmar, que o médico iria  lhe atender e examinar. Mas a coitada, gostava mesmo de falar. A fisioterapeuta lhe colocou uma máscara chamada CPAP*, para que a cliente possa fazer exercícios respiratórios por um período.

Depois de um período, foi retirado para que a cliente possa se alimentar, ainda que, ela tinha dificuldades para respirar, estava liberado uma dieta leve, pastosa, que vinha sopa e um copo de suco. A moça olhava com aqueles olhos arregalados para a comida, e mal a copeira colocava sua comida na mesa, a moça saiu puxando a bandeja para comer, rapidamente. Olhei para aquilo e achei estranho, e perguntei, qual foi a última refeição que ela fez, e ela me respondeu “faz uns dias..!”. Entendi o porque disso. A moça morria de fome, e mesmo que ela estivesse debilitada, comeu com a maior rapidez aquele prato de sopa, e tomou o suco, num gole só. Até pedi para a moça da copa se poderia trazer mais um copo de suco, pois a moça estava me implorando para que trouxesse pois morria de sede.

Passava-se alguns minutos, a moça apresentava piora. Estava muito cansada, e o plantonista achou melhor entubá-la, para que possa melhorar sua parte respiratória. Fomos preparar todos os materiais para o procedimento, e aquela moça, mesmo estando numa situação complicada, puxou minha mão e me pediu para que guardasse aquele copo de suco que tinha conseguido para ela. “Eu irei tomar esse copo assim que acordar”, repetiu ela. Ficamos intrigados, pois apesar de todo seu histórico, a moça só pensava em se alimentar. Imagino o tanto tempo que ficou sem comer, passando frio nas ruas, e ainda grávida. É uma situação delicada. Não sei que escolhas da vida que ela tomou, para chegar neste ponto. Não pensei neste caso naquele momento, somente ao que ela falou.

Passava-se alguns dias, e foi diagnosticada com pneumonia, sendo descartado as duas hipóteses faladas anteriormente. Apresentava melhoras, tiraram-lhe a sedação, até um dia, depois de todo o tratamento, conseguiram extubá-la com sucesso sem problemas, e a primeira coisa que lhe perguntei quando ela estava em condições de falar era “a senhora ainda quer aquele copo de suco?”, e a moça, com um sorriso no rosto, mesmo com poucas dificuldades da fala, depois de um longo processo invasivo, me responde “você não esqueceu mesmo do que eu pedi! Muito obrigada! Quero tomar sim, estou com muita vontade”, e lhe trouxe, depois de liberarem novamente a dieta, dois copos de suco de uva, na qual ela tinha tomado naquele dia. A moça ficou muito satisfeita e agradeceu muito a equipe pela lembrança, menos que seja simples, de ter guardado (sabendo que pegamos o suco novo da copeira, risos). Pequenos atos, grandes lembranças. Mesmo que seja insignificante para alguns, é um ato de humanismo para outros.


*CPAP –  Contiunous Positive Airway Pressure

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