Histórias

Criando vínculo profissional

Trabalhar com diversos tipos de pessoas é difícil. Cada um tem suas características, formas de pensar e agir, e temos que respeitar conforme a situação. Me dou bem muito com meus colegas, criamos um vínculo profissional muito positivo, apesar de não ser todos, como qualquer pessoa que passaria nessa situação.

Trabalhamos bem durante as intercorrências, essa é a chave de uma boa equipe. Mas não é sempre que se emprega no geral. Ainda, em minha estadia ao plantão noturno, não lidava bem com um dos médicos plantonistas. Aliás, ele criou um vínculo negativo sobre mim. Até ai tudo bem, porque estamos lá pelo paciente.

Era uma madrugada silenciosa, até um certo período. Tínhamos um paciente um pouco grave, e necessitava de drogas vasoativas em dosagem mais altas.E por isso era necessário monitorar o tempo todo sua pressão e saturação. Para isso, necessitava de um procedimento invasivo, chamado “PAI (Pressão Arterial Invasiva)”. Para mim que era novo, mesmo tendo umas semanas de casa, não tinha tido oportunidade de auxiliar um procedimento deste. Já tinha visto de longe de outros pacientes que não eram meus, mas estando ali, você de frente ao médico, sozinho, é diferente.

Estava um pouco nervoso já pelo fato de ser o plantonista que era meio irônico comigo, pelo fato de ser novo ainda naquele plantão. Tive que “enfrentá-lo”. Ser profissional e fazer o que era certo. Ele chegou, e disse que iria fazer o procedimento em meu paciente. Fomos abrindo o campo de mesa, para colocar os materiais estéreis dentro dele. Ele vestiu o capote estéril, calcou as luvas estéreis e começou o procedimento. Ele foi me pedindo, de uma forma seca, as coisas. “Gaze estéril.” Fui dando, conforme o que pedia. “Aplique a clorexidina alcóolica nessas gases.” Fui eu, calmamente, peguei a almotolia com a mão esquerda e apliquei nas gases. “Muito bem! Você é a primeira pessoa nova que começou bem. Sempre utilizando o material na mão esquerda, que é o correto”. Eu olhei com uma cara de espanto e não entendi o que era aquilo. Não sabia que tinha um lado certo para passar as coisas para o médico!

Conforme foi passando o tempo, ele começou a se gesticular mais. Falando um pouco sobre o procedimento, para que servia, o que seria útil para aquele paciente. O deixei explicar, e fui absorvendo as informações. Aquilo era importante para mim, pois é o momento  que ele deixaria de ser um chato para ser uma pessoa de boa conversa. Terminamos aquele procedimento com sucesso, e ele me pediu para que o ajudasse no mesmo procedimento em outro paciente, e achei estranho pois o paciente não estava sob meus cuidados. “Você é prestativo e isso ajudará a ser um procedimento rápido”, disse o médico. Eu falei tudo bem, já que meu colega estava em horário de janta, não neguei o pedido.

Fomos ao outro paciente, para fazer a mesma coisa de antes. Ele foi conversando, falando sobre coisas em geral. Estava passando um programa na TV de madrugada, chamada Altas Horas. E estavam falando sobre as poesias do Guilherme Arantes, nas quais influenciaram em muitos artistas. E ficamos falando sobre isso um bom tempo. Eu não era um bom entendedor de poesias brasileiras. Mas acabou que simpatizamos no final. Ele tinha boas histórias, nos descontraímos. Tive uma oportunidade de dizer a ele que no começo o achava um pouco difícil de lidar. E que isso não é bom para quem regressa ao seu plantão.

Ele explicou que já teve muitas decepções com gente nova. Já fizeram muitas coisas erradas. E isso para ele é péssimo porque ele investe tanto em algumas coisas e tem pessoas que atrapalhavam. Parece que faziam as coisas erradas de propósito, que não gostavam de estar ali. Mas eu demonstrei o oposto. Não estou ali para atrapalhar ninguém, ao contrário, disposto a fazer de tudo pelo próximo, e aprender. Não era fácil lidar com todo o tipo de maquinário, mas agente vai levando.

Criar um vínculo profissional com todas pessoas lá dentro é importante. Pois as coisas fluem melhor, eu acho.

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