Histórias

Meu curso técnico!

Como compartilhei um pouco do meu começo na  área da enfermagem nesse post, aqui continuarei minha história sobre minha próxima etapa na carreira profissional.

Após um certo tempo estar atuando como auxiliar de enfermagem na mesma instituição por 1 ano, obtive pelo ótimo desempenho como profissional o reconhecimento pela minha gerência de enfermagem, uma bolsa de estudos em uma escola técnica particular, para fazer o técnico de enfermagem. Pelo meu esforço, vontade e muita garra de aprender, destacar ente os colegas, foi um grande mérito para mim. Não estou contando vantagem.

Estava em uma rotina corriqueira na enfermaria onde trabalhava, dando banho no leito em um dos meus pacientes, no qual estava com um fixador externo em uma das pernas, tendo dificuldades de se lateralizar, e tendo ajuda de seu acompanhante para que eu pudesse finalizar o procedimento e realizar a limpeza do fixador, veio minha chefe do setor me chamando para que quando acabasse o banho passasse no posto de enfermagem. Até ai tudo bem, achei comigo … Bom, ou é bronca ou é alguma tarefa a mais para fazer. Na enfermaria em que trabalhava, éramos em 8 colaboradores para 40 leitos. Tínhamos o período da manhã para realizar todos os banhos no leito (os mais pesados)  e a tarde os banhos de aspersão com ajuda. Aqueles que queriam tomar banho sozinhos, eram liberados.

Eu fazia os cuidados parciais. Nossa equipe era dividida assim : 2 pessoas ficavam responsáveis pelo posto de enfermagem (fazia as rotinas como agendamento e recebimento de exames, atendimento ao posto, encaminhamento de pacientes a exames, escrevia a passagem de plantão em um livro). Como o setor era meio extenso, dividíamos em 2 corredores (frente e fundo), em grupos de 2 colaboradores cuidando somente dos banhos, curativos, sinais vitais, oferecendo as dietas por via oral aos pacientes, troca de roupa de cama, e limpeza concorrente nos quartos. Tínhamos mais 2 colaboradores responsáveis somente pela parte de medicamentos, puxavam todos os horários das prescrições médicas e separavam todos os tipos de medicações (soros, comprimidos, injeções), para ser administrada durante os horários certos. Também eram responsáveis pela instalações das dietas enterais. E um enfermeiro, que era responsável pelo setor, e pela elaboração de evolução de enfermagem, e da prescrição do enfermeiro, e ficava à frente de todas as intercorrências do setor.  Geralmente nós rodávamos de função a cada 7 dias.

Adorava trabalhar nessa rotina. O tempo passava tão rápido que você não sentia. Você conversa com os pacientes, escuta um pouco sobre a vida deles. É tão bom fazer eles se sentirem bem… Quando agente admitia um paciente, nós os recepcionávamos tão bem… Que ele mesmo não se sentia doente. É uma coisa que surge naturalmente dentro de você, parece que você se satisfaz vendo o próximo ali dando um sorriso pra nós.

Mas o que eu gostava mesmo, era quando surgia uma intercorrência grande. Quando surgia um paciente mais grave e que tinha que ter cuidados mais especiais… Mesmo nós sabendo que uma hora poderia acontecer alguma coisa com ele… Como por exemplo. Um senhor que era cardiopata e estava aguardando uma angioplastia.. Teve uma parada na enfermaria. E eu estava responsável por ele… A primeira coisa que fiz foi começar a fazer as manobras de RCP… e por sorte minha colega estava passando pela porta e gritei ” CHAMA A ENFERMEIRA QUE TEMOS UMA INTERCORRÊNCIA!” .. Logo em seguida veio a enfermeira, meus colegas para me ajudar e um plantonista que estava passando visita na enfermaria… Foi uma total adrenalina!  Puxa o carrinho de emergência, administra adrenalina e atropina… o médico o entuba ali no quarto … Que correria! Tivemos que bipar uma fisioterapeuta para que possa dar uma assistência pra gente.. Paciente entubado é mais complicado, precisa de um ventilador mecânico mais eficiente, e o que tínhamos na enfermaria era uma BIRD*… (um pouco antigo mas quebra o galho).

Foi aí que já vimos que este paciente iria necessitar de uma vaga de UTI e o médico que deu a assistência na hora fez o pedido de vaga. E era uma rotina quase sempre assim, uma hora parecia uma calmaria na enfermaria, que conseguíamos acabar no horário… tinha horas que não ! E foi aí (que eu acho), que consegui me destacar um pouco ao assistir um paciente mais delicado. Acho que conforme passando o tempo, minha chefe de setor começou a me olhar com outros olhos. E voltando a história lá em cima, fui ver o porque fui chamado no posto de enfermagem. Minha chefe de setor me contou que estava sendo chamado lá na gerência de enfermagem (daí fiquei cabreiro, o que poderia ter feito?). Bom, avisei meus colegas que iria me ausentar do setor e fui na gerência.

Fui bem recepcionado pela minha gerente, e pediu para que eu sentasse. Eu, que estava meio tenso, fiquei olhando firmemente aos olhos dela, esperando algum tipo de bronca ou coisa assim. Não me lembro de ter feito nada de grave no meu serviço!(Risos).

Daí que ela me disse o seguinte:

– Bom, pedi para que te chamassem aqui pois estamos precisando de funcionários para trabalhar em nossas UTIs, e que seja interno. Pessoas que já trabalham com agente, estamos dando oportunidade à aqueles que queiram subir na carreira e ganhar um pouco mais. Você está interessado em trabalhar em uma UTI?

E daí meus olhos se encheram de lágrima e respondi:

– Nossa! Mas é claro que sim! Não esperava por esta oportunidade… Mas é um sonho! Gosto muito da adrenalina de uma intercorrência, quando eu puder sempre estarei prestando a assistência em um! Mas senhora, ainda não tenho o curso técnico.. Eu sei que somente um técnico de enfermagem pode trabalhar em setores assim.. Mas me formei em auxiliar de enfermagem e ainda não tive essa oportunidade de começar a fazer o curso.

– Não se preocupe. Disse a gerente. Já fui informada pelo seu empenho e esforço, que você tem habilidades em lidar com intercorrências mais delicadas, e em nome do hospital e da gerência de enfermagem, estaremos lhe oferecendo uma bolsa de estudos para realizar o curso técnico, e ao acabar seu curso, você poderá concorrer a uma vaga de técnico em uma das UTIs nossa. O que acha?

Simplesmente fiquei de boca aberta. Eu jamais esperaria uma oportunidade dessa, de tamanha gratidão eu aceitei e fiquei sem palavras. Não sabia que após mesmo de passar na experiência, eu era constantemente avaliado pela minha chefe do setor. Como é bom estar sempre se empenhando, buscando estudar sempre alguma coisa relacionada ao que agente faz. Eu sempre fui uma pessoa curiosa, sempre gostei de ler bulários, saber um pouco mais daquilo em que estou fazendo… Em também como atuar em uma emergência, mesmo eu não tendo experiência alguma, uma hora iria precisar.

Fui me matricular em uma escola onde o hospital me forneceu a bolsa. Não via a hora de começar as aulas, de conhecer meus colegas de classe e meus professores. Eu trabalhava de dia e iria estudar à noite. Seria puxado mas valeria todo o esforço.

Se passando 1 mês após o acontecimento, começaram-se as aulas. Irei resumir sobre o curso porque a história é bem extensa. Na minha época o curso técnico tinha duração de 6 meses (para quem já tinha realizado o curso de auxiliar de enfermagem anteriormente), juntamente com o estágio. Me lembro que tive matérias como: Saúde pública, UTI, farmacologia II, Centro Cirúrgico, fundamentos de enfermagem, oncologia, clinica médica II.. Eram matérias muito interessantes, tinha muitas coisas estudadas ali que já havia presenciado no meu trabalho, e se tornaram mais fáceis de entender e simular.

Boa parte dos meus colegas de sala não havia trabalhado e sequer ter experiência na área. Parecia ser mais difícil eles entenderem certas coisas do que a mim. Então decidi a fazer tipo um pequeno grupo de estudos em sala de aula, para compartilhar um pouco do que já tinha visto para que eles possam ter um entendimento melhor. E isso parecia que ajudou muito, pois muitos deles iam bem nas provas!

A aula que mais me fascinava era a de UTI. Parecia que tudo que minha professora ensinava, fluía bem aos meus ouvidos… Parecia tão fácil imaginar como era um ambiente desse… Como funcionava todos aqueles aparelhos e tal. Até um certo dia, já no quase final do curso, iniciaram-se os estágios. Começamos primeiramente em clinica médica (hospitalar e casa de repouso), depois em UTI e Centro Cirúrgico. Adorei a cada lugar que estagiei. Cada lugar tem sua particularidade, tem pra todos os gostos. Pra quem gosta de ambiente de casa de repouso, é muito relaxante. É calmo, muitas vezes até demais (para meus olhos, risos)! Eu já gosto mais é de correria… Pelos poucos dias em que estagiei em uma UTI pude presenciar uma parada, uma abertura de traqueostomia, uma admissão bombástica (risos), dois óbitos, e 3 altas. Por mim ficaria até mais! Hehe. E no centro cirúrgico, é um lugar muito interessante, pois você está mexendo em um lugar que tem que ser constantemente quase estéril (toda cautela é pouca), e o C.C não se resume somente a cirurgias não, a parte mais legal que gostei foi a parte de esterilização dos materiais, tem todo um esquema para que uma cirurgia quando acabe, as bandejas contaminadas precisam ir para uma sala contaminada que tem todo o caminho diferente da sala limpa, onde sobem todos os materiais limpos e estéreis, para evitar a contaminação cruzada.. Achei isso maravilhoso!

E daí acabamos o curso! Fizemos uma pequena comemoração à todos aqueles que concluíram o curso (por incrível que pareça ninguém desistiu no meio do caminho) por ter vencido mais uma etapa!

Fiquei muito feliz em que as coisas na nossa vida vem na hora certa. Uma oportunidade de promoção de emprego é uma coisa que você precisa se agarrar. Não desistir nunca, das dificuldades que podemos encontrar no caminho, eu penso sempre assim… Se agora está difícil pra mim, é algum ensinamento que estou vivenciando.. Porque daqui mais pra frente isso servirá de exemplo a mim mesmo. Se você está passando por isso, vá à frente! Não desista nunca!

 

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Legenda Ilustrativa:

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*BIRD : Ventilador Mecânico Pressométrico Bird Mark 7

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4 respostas »

  1. Olá! Muito bom o blog. Estou pensando em ingressar na área da saúde, e meu interesse e cursar enfermagem. Só que estou na dúvida em começar um curso técnico ou diretamente uma faculdade. O que você acharia melhor? Eu não sei ao certo por onde começar.
    Continue assim, é difícil de ler um blog desses por aí. É legal saber das opinões do lado profissional.

    • Olá Edvaldo!

      Muito obrigado. Na minha opinião sincera como profissional atuando na área por alguns anos, recomendo que tenha como base da enfermagem todas as questões teóricas e práticas aprendidas em um curso técnico. É fundamental que tenha aprendizados práticos. Ou pelo menos tenha tentado trabalhar na área. Um enfermeiro recem formado sem uma base pratica é um pouco complicado, pois se não tem experiência vivida na área, será mais trabalhoso em supervisionar uma equipe de trabalho, executar algumas tarefas básicas. Sei que existem muitos profissionais graduados bons, e de que não tenha exercido como auxiliar ou técnico antes, a regra não se aplica todos. Digo para sua própria confiança em atuar sem medo. Boa sorte.

    • Edivaldo, eu também estou para te apoiar a fazer o técnico. Deixei a minha profissão (sou jornalista) com 11 anos de experiência e resolvi fazer técnico em enfermagem. Não arrependo em nenhum momento. Faço minhas também as palavras do dono desse ótimo blog.

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